14.11.09

Que borra será de nós?


Russell Crotty, 1996



Palhaço da Boca Verde



esqueci de perguntar

o que há entre você e o medo


entre o medo e eu

há duas décadas


entre o medo e eu

uma parábola


entre o medo e eu

duas almôndegas


entre o medo e eu

partículas sólidas


entre o medo e eu

dois nomes, a custo ditos


entre o medo e eu

tocar a própria carne


(não vê? duas personagens

o palhaço, a puta – refratam-nos


que borra será de nós

mais tarde ou cedo?)


entre eu, o medo e o sol 

o radioso cometa


de teu sorriso

descreve a elipse



* * *

6.11.09

Muito mais que esses quinze minutos


Francis Bacon, Study of a Dog, 1958


Carlos e eu


Não gosto de lembrar de Carlos. Não gosto da palavra trauma. Mas o que aconteceu entre nós, percebo hoje, foi quase isso. 

 Já tive namoradas. Reparti o mesmo espaço com uma mulher por anos, em duas ocasiões. E sei dos infernos e delícias disso. A todas prezo. Mesmo ao lembrar os momentos de maior azedume.

Mas o que ocorreu entre Carlos e eu foi um bocado forte. 

 Em 1999, precisava de um sítio isolado. Sair da bagunça de São Paulo, com suas permanentes tentações boêmias, para algo menos frenético. E para escrever um texto longo: a tal tese de doutoramento. Uma colega de turma, da PUC, me sugeriu um apartamento, em Florianópolis, que podia me alugar a um preço acessível.  

Na verdade, o imóvel era em Canasvieiras, uma praia que vaza argentinos pelo ladrão e outras gentes de sortidas nacionalidades e distintas paixões futebolísticas. Isso no verão. No inverno, é uma ilha de isolamento dentro da Ilha de Santa Catarina. 

O nome original de Florianópolis é Desterro. E chega ser uma ironia que a homenagem ao nosso segundo presidente, Floriano Peixoto, um caudilho no melhor estilo Latinoamérica, lhe tenha legado esse nome solar, floral, exuberante – não raro abreviado carinhosamente para Floripa. E, em especial, se contraposto à melancolia exílica de Desterro.  

 Mas era de um desterro do que eu precisava. E os preços dos aluguéis em Canasvieiras despencavam no inverno. E o espaço era bom. Um apartamento no térreo, com o mar quebrando a menos de cem metros adiante, uma pequena ilhota no horizonte, duchas aquecidas, boa mobília, servidor de internet 24hs, televisão a cabo…

Mudei-me.

 As novidades dos primeiros dias. Comprei um caniço de pesca. E às vezes pescava na madrugada. Nunca havia vivido à beira-mar no Sul do Brasil. Ou seja, naquelas costas em que o resto mínimo de floresta atlântica, densa e viçosa, agarrada ao lombo das serras, literalmente mergulha no mar. E adiante se entrevê ilhotas pontuando o horizonte. Achava aquilo lindo. De uma beleza diferente das praias de dunas ou falésias barrentas do litoral do Nordeste. Quase peladas de vegetação – a não ser por coqueiros, bredos, cajueiros-da-praia ou manguezais de quando em vez.  

E quinze dias depois morria de tédio. 

Passava o dia lendo e escrevendo. Havia apenas um vizinho, que morava no terceiro e último andar do prédio, e cujas janelas davam para a rua oposta à praia. Às vezes, quando saía para comprar cigarros na birosca mais próxima, sua filha – e era uma bela adolescente – trocava carícias com o namorado na pequena, sombria, escadaria de entrada. E o casal se continha um pouco e me cumprimentava protocolarmente em meio à penumbra. 

Gosto de solidão. Acho que todos tem direito a seu quinhão de estar sozinho por pelo menos quinze minutos ao dia. O mundo seria menos selvagem. Talvez. O que sei é que até hoje cultivo muito mais que esses quinze minutos, dia após dia. Mas nessa época eram quase as 24hs. Na íntegra. Sem direito a diálogos, nem que de plano e contraplano. 

Por vezes, me revoltava contra esse desterro. Tomava o ônibus e cortava os 27 Km de belas paisagens até Florianópolis propriamente dita. A cidade, mesmo no inverno, possuía uma vida moderadamente pulsante, à noite. Especialmente nos fins-de-semana. 

Mas logo numa dessas primeiras noites de revolta contra o tédio, dei com meu vizinho numa danceteria. Ele se chamava Rui, assim com “i”; e era um advogado bem sucedido. Tinha quase mais que a meia-idade. E se encontrava tão expansivo, que volta e meia era repreendido, debalde, pela esposa. Rui já se encontrava naquele estágio bebum de quem não ouve mais ninguém a não ser a si próprio. De quem fala e ouve pelos demais. Quem não conhecesse Rui, ou visse apenas seu vulto em meio a semi-obscuridade multicor da pista de dança, julgaria tratar-se de um adolescente. Um tanto corpulento. Mas ainda assim um adolescente.

Ao fim da noite, Rui insistiu – e não pouco – para que eu voltasse de carona com eles até Canasvieiras. Fui, um tanto a contragosto, para não ferir suscetibilidades entre vizinhos que mal se viam e não tinham outros vizinhos. 

O problema é que logo à saída do clube, Rui jogou seu carro na traseira de outro. E, como todos sabemos, advogados não perdem causas no Brasil se a pendência se dá com eles. Ainda quando bêbados e sem razão. E, quando eu estava observando a cena, em desolamento, Rui, achegou-se aos trancos, abraçou-me, como a um velho amigo, e disse: “Xará, você vai ser meu testemunho. O caso tá ganho”. 

Mas a coisa não era tão simples. Seria preciso aguardar a Perícia de Trânsito, sempre morosa. E, enquanto isso, a mulher de Rui lhe enfiava uma garrafa de café amargo goela abaixo na esperança de que ele se recompusesse um pouco. Ou ao menos cambaleasse menos. E, sabendo que a responsabilidade pelo incidente fora inteiramente de meu “xará”, dei um jeito de esquivar-me. E voltei de táxi para Canasvieiras. 

O episódio, não só estremeceu um tanto a relação entre os vizinhos, como também me retirou o gosto pelas noitadas em Floripa. Quando muito ia ao cinema ou a um café. E voltava cedo, ainda no horário dos ônibus. Isto é, antes de onze. 

Percebendo meu excesso de isolamento, uma conhecida, professora de antropologia na Federal de Santa Catarina, propôs-me adotar um cachorro. É que sua cadela, uma labrador, tivera ninhada. 

Disse que não, quase automaticamente. Em criança, à exceção de alguns pássaros, que cedo se foram, e de um coelho que vivia escondendo-se atrás de uma caixa de madeira, no quintal, nunca tivemos animais de estimação.

 Mas certa tarde ela apareceu com o pequeno cão. E era tão pequeno e tão belo. Tinha os olhos tão doces, e um modo de erguer a cabeça assim com a suavidade de quem pede entregando, que não pude resistir. O cãozinho dormiu na sala, a primeira noite, numa caixa com trapos, um pouco de água e comida. Ainda assim gemia. E não sei porque cargas d’água comecei a me preocupar com os gemidos daquela criatura. Ainda cogitei devolvê-lo na manhã seguinte. Mas a doçura de seus olhos nunca que deixariam. E, assim, armei um nicho para ele rente ao balcão da cozinha.

Pus-lhe o nome de Carlos. Em homenagem a Drummond e Williams. Talvez Drummond e Williams não tivessem a doçura dos olhos do meu Carlos. Mas o meu Carlos, a seu modo, podia ser tão poeta quanto os outros dois. Ao passearmos pela praia, por exemplo. Ele, sempre comedido, até na alegria. No perseguir o bando de gaivotas. Ou do contrário no rosnar piano para um bêbado que certa vez aproximou-se com um porrete na mão mascando ameaças desconexas. 

Era também um cão de uma natural inclinação para disciplina. Perto de nosso horário de caminhada, pela manhã, se eu não ia até ele, postava-se ao lado de minha cadeira. Sentado, em circunspeção. E, por vezes, me entrolhava. Mas sem transparecer aborrecimento. Apenas com aquela insinuação tácita no negro dos olhos: “você não vê que está atrasado? Não vê que tem ficado demais com esses livros e a praia nos espera lá fora?” 

Carlos era um lindo cão. Um labrador de porte. Pelo branco-gris. Patas traseiras bem constituídas. Havia uma nobreza em seu sentar. Ou no ganhar corrida pela areia úmida, sempre embalando, de pouco mas continuadamente, a velocidade. Havia em sua personalidade a inata qualidade do cuidar. Do cuidar sem reclamos. Sem ter de puxar algo de volta. Fosse o carinho do dono, fosse o biscoito canino mais raro que sua usual ração, fosse uma nova coleira, porque a anterior ficara pequena para sua compleição. Ele ainda crescia.

E assim, com essa mesma têmpera, vi-o ficar adolescente. E recém-adulto.

 Não que ele fosse um santo. Uma ocasião, entendeu de ficar cercando e pulando em torno de um siri já na calçada do prédio. Eu tinha o que fazer. E quando o pus para dentro de casa, à força e com alguns tapinhas nas ilhargas. Amuou-se. Passou dias assim. Embora sempre cumprindo seus deveres de companheiro de caminhadas e seus horários habituais. Reservou-se. Correu mais lentamente para apanhar os gravetos. Passou ao largo das gaivotas.  

 Eram dias longos. Abreviados pelo cedo do entardecer sobre as ondas. O hotel, erguido em estilo balneário francês, sugeria que estávamos numa estação termal ou algo assim. Havia molhes e traineiras. Uma bela restinga, que, na baixa-mar mal fendia a praia até a angra. Era sobrelevada por uma ponte de madeira, que, às vezes, atravessávamos se a caminhada para mais longe se estendia. E tudo isso ele observava com a densidade alerta de seu olhar.

A última vez que vi Carlos, ele estava sentado sobre si, naquela postura que só ele tinha, no amplo bagageiro de uma vagonete Renault da família que o adotara. Eu tinha de tornar a São Paulo e ele não poderia seguir comigo. 

 Havia em seu olhar negro, úmido, uma chispa de acusação. De desdém, talvez. Que só não eram maiores que a inata bondade.

Tive outras namoradas. E duas mulheres. Amigos. Inimigos. Li uns tantos outros livros. Nunca plantei uma árvore. Me nasceram duas filhas. Morei outras cidades. Visitei outros países. Escrevi a tal tese.

Por causa de Carlos, jamais tive outro cão. 

Não sei se ainda vive. 



* * *

4.11.09

Uma história (e uma visão) de lince: morreu Lévi-Strauss


Claude Lévi-Strauss, um mestre (1908-2009)



Inflação, Urgência e Doutrina


Há um aspecto que venho insistindo com meus alunos já faz algum tempo quando o tema recai sobre teorias e exegeses contemporâneas: vivemos numa época de extrema inflação de discurso.

Quer dizer, há uma verdadeira febre por se produzir interpretações da realidade. E por se reproduzi-las com pequenas variações fazendo de conta que se está inaugurando uma nova linha de pensamento. Seja na filosofia, na sociologia, na história, na literatura.

O ponto é que a maioria dessas interpretações constituem tão-só modelos teóricos ocos, incongruentes ou perfeitamente datados.

São elaboradas para suprir uma demanda constante da academia. Uma espécie de sistema de moda do tipo que se retroalimenta cada vez mais em doses cavalares, já que as universidades mais e mais se assemelham a grandes empresas que se regem pela lógica do lucro – da usura, se diria no Medievo. O certo é que não retêm nenhum compromisso mais cerrado com a realidade e com a história. Com a verdade. Com sua busca.

Aqui no Brasil isso é ainda mais caricato, porque, claro, vivemos de macaquear os modelos teóricos europeus. Lévi-Strauss, discorrendo sobre o esquema mental dos alunos da USP de seu tempo, em certas páginas lapidares de Tristes Trópicos, nos dá testemunho disso já àquela altura, quando nos assegura que eles se compraziam em ostentar novas teorias como roupas novas. Ou declinar o nome de um novo teórico, desconhecido pelos demais colegas, com um gozo todo próprio. Como se possuíssem a receita de um novo prato. Uma guloseima que os outros ainda desconheciam, não haviam degustado.

E, no entanto, o conhecimento que tinham dos clássicos, da tradição e de uma formulação menos empacotilhada de pensar era sofrível. Ou seja, esse zelo cosmopolita pela teoria nova os tornava ainda mais provincianos. Coisa que, aliás, num certo sentido, São Paulo prossegue sendo. O próprio Lévi-Strauss aponta para o fato de seus estudantes paulistas estarem pelo menos seis meses mais “adiantados” que ele próprio na recepção de novas teorias. Mas serem inteiramente incapazes de se dedicar a um assunto com um mínimo de zelo monográfico ou por meio de um recorte mais profundo, menos refém desse sistema de modas acadêmicas e dessa erudição de pacotilha.


[trecho da postagem Erudição e Pacotilhas, publicada neste blogue em 16.11.08]


*   *   *

3.11.09

Embora coisas ditas


Brice Marden, Zen Study 6 (Early State), 1990



'Coisas ditas'


coisas ditas da boca

pra fora

passam pelos

ouvidos até

a pletora


embora coisas ditas

da alma pra fora

entram em outra alma

e lá demoram

demoram



* * *

Como se não houvesse o passado feito o presente: Creeley


Naoto Fukasawa, Plus Minus Zero Humidifier, 2006



Zero


for Mark Peters


Not just nothing,

Not there's no answer,

Not it's nowhere or

Nothing to show for it -


It's like there's no past like

the present. It's

all over with us.

There are no doors...


Oh my god! Like

I wish I had a dog.

Oh my god!

I had a dog but he's gone.


His name was Zero,

something for nothing!

You like dog biscuits?

Fill in the blank.


Robert Creeley



Zero


a Mark Peters


Não apenas nada,

Não não há respostas

Não que esteja algures

Nada a mostrar em troca—


É como se não houvesse passado feito

o presente. Tudo

acabado entre nós.

Não há portas...


Ah, meu deus! Como

gostaria de ter um cão

Ah meu deus!

Eu tinha um mas ele se foi.


Seu nome era Zero,

algo em vez de nada!

Te agradam biscoitos caninos?

Preencher a lacuna.



* * *

2.11.09

Algures a um canto, num sítio desalinhado: Auden

Pieter Brueghel, o Velho, Paisagem com a queda de Ícaro, c.1558



Musée des Beaux Arts


About suffering they were never wrong,

The Old Masters: how well, they understood

Its human position; how it takes place

While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;

How, when the aged are reverently, passionately waiting

For the miraculous birth, there always must be

Children who did not specially want it to happen, skating

On a pond at the edge of the wood:

They never forgot

That even the dreadful martyrdom must run its course

Anyhow in a corner, some untidy spot

Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse

Scratches its innocent behind on a tree.


In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away

Quite leisurely from the disaster; the ploughman may

Have heard the splash, the forsaken cry,

But for him it was not an important failure; the sun shone

As it had to on the white legs disappearing into the green

Water; and the expensive delicate ship that must have seen

Something amazing, a boy falling out of the sky,

had somewhere to get to and sailed calmly on.


W.H. Auden



Musée des Beaux Arts


Sobre sofrimento nunca se equivocavam,

Os Velhos Mestres: como entendiam bem

O ponto-de-vista humano, de como ele ocorria

Enquanto alguém comia ou abria uma janela ou tão-só caminhava monotonamente;

O modo como os idosos seguiam reverentes, em ardente aguardo,

Pelo nascimento miraculoso, devia haver sempre

Crianças que não o desejavam tanto, patinando

Num charco à orla da floresta:

Eles nunca esqueciam

Que mesmo o mais medonho martírio tinha de seguir seu curso

Algures a um canto, num sítio desalinhado

Onde os cães prosseguem com sua canina vida e o cavalo do torturador

Esfola o inocente atrás de uma árvore.


No Ícaro de Brueghel, por exemplo: de como quase tudo dá as costas

Um tanto placidamente ao desastre; o lavrador

Pode ter ouvido o espasmo, o clamor desamparado,

Mas para ele nada havia de muito erro; o sol brilhava

Como sobre as pernas brancas a desaparecer no verde

mar; e o caro e sofisticado navio que deve ter visto

Algo fantástico, um moço caindo do céu,

Tinha um destino a encontrar e navegava suavemente.



* * *


Guimarães Rosa, o diretor


Fragmento do manuscrito de Grande Sertão: Veredas, c. 1956


Quando alguns serviços são desserviços


Ontem uma amiga foi a um espetáculo teatral baseado em textos de Guimarães Rosa. E gostou do que viu. Mas também alertou-me para esta nota de serviço sobre a peça no Vida & Arte de O Povo, em certa edição, setembro passado:

SERVIÇO

ENCANTRAGO VER DE ROSA UM SER TÃO - peça do Grupo Expressões Humanas e Teatro Vitrine, com direção de Guimarães Rosa. Reestreia hoje, 17, no teatro do Sesc Senac Iracema (rua Boris, 90 - Praia de Iracema, ao lado do Centro Dragão do Mar). Em cartaz às quintas-feiras de outubro, exceto dia 22; e dias 1º e 5 de novembro, sempre às 20 horas. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Outras informações: 3452 1242 ou 8854 3219. [sic]

Talvez do além-túmulo, Rosa tenha vindo dirigir a peça - que por sinal, parece ser um espetáculo à procura de uma melhor recensão. A "resenha" completa pode ser vista aqui:

http://opovo.uol.com.br/opovo/vidaearte/910060.html


*   *   *

31.10.09

Chama nos lombos, e nos lábios o cismo: Campbell


Sam Francis, Chinese Planet, 1963



We are like worlds


We bear to future times the secret news

That first was whispered to the new-made earth:

We are like worlds with nations in our thews,

Shaped for delight, and primed for endless birth.

We never kiss but vaster shapes possess

Our bodies: towering up into the skies,

We wear the night and thunder for our dress,

While, vaster than imagination, rise

Two giant forms, like cobras flexed to sting,

Bending their spines in one tremendous ring

With all the starlight burning through their eyes,

Fire in their loins, and on their lips the hiss

Of breath indrawn above some steep abyss.

When, like the sun, our heavenly desire

Has turned this flesh into a cloud of fire

Through which our nerves their strenuous lightning fork

Eternity has blossomed in an hour

And as we gaze upon that wondrous flower

We thin the world a beetle on its stalk.


Roy Campbell



Somos como mundos


Portamos aos tempos futuros as novas manchetes

Que antes foram sussurradas à terra recém-criada:

Somos como mundos com nações entre os jarretes,

Feitos para deleite, providos de uma incessante chegada.

Nunca beijamos mas possuímos mais vasta placenta 

Nossos corpos: soerguendo-se até o confinar, 

Envergando noite e trovão por vestimenta,

Enquanto, ao léu, mais vastos que imaginar,

Medram dois gigantes, feito cobras a armar o bote,

Contraindo suas vértebras em um só tremendo lote,

Com plena luz estelar nos olhos, a brilhar

Chama nos lombos, e nos lábios o sismo

Do sopro sorvido sobre algum fundo abismo.

Como, feito sol, nosso celestial rogo

Torna essa carne uma nuvem de fogo

Entre a qual, por nossos nervos, suas juntas distendidas ao máximo

A eternidade floresce em uma hora

E enquanto contemplamos a prodigiosa flora

Reduzimos o mundo a um besouro em seu limo.



* * *

30.10.09

Alguna poesia de Fortaleza, alguns pés na água: Diego Vinhas


Webflyer do lançamento da antologia Meio-Dia



Alguna Poesia de Fortaleza


Será lançada hoje, 30 de outubro, no Café da Livraria Lua Nova, às dezoito e trinta, a antologia bilíngue [não me conformo com a limagem do trema] de poemas Meio-Dia, impressa pela Editora Vox, de Bahia Blanca, Argentina e organizada por Diego Vinhas. Um recorte pontual e elegante da polifonia e diversidade de vozes e estilos de gente que, em tempos recentes, andou cometendo versos aqui pelo Forte. Nela estão presentes Henrique Dídimo, Eduardo Jorge, Carlos Augusto Lima, Rodrigo Magalhães, Rodrigo Marques, Diana Mello, Virna Teixeira, Xênio Ruysconcellos, Eli Castro, Júlio Lira, Manoel Ricardo de Lima e Cândido Rolim. 

Ressalte-se a extrema elegância do editor, Diego Vinhas, ao não se auto-incluir. Diego, que é uma voz mais que interessante na cena poética brasileira e local, com seu instigante livro de estreia, Primeiro as coisas morrem [Sette Letras, 2004]. Diego, com esse futebolístico prenome, também frustrado torcedor de tricolores que começam com a letra "F": Fortaleza e Fluminense, flamantes candidatos respectivamente à 3ª e à 2ª divisão neste ano da Graça de 2009. 

Publico abaixo um poema de que gosto muito e, ainda melhor, me foi gentilmente dedicado por Diego Vinhas, frustrado torcedor de tricolores, mas que, da varanda de seu apartamento, divisa uma magnífica vista da enseada do Mucuripe, com seus barcos oscilando à distancia, a usina eólica ao fundo, navios fundeados ainda mais ao largo e a risca do mar a limiar um horizonte:



Dos Barcos

para Ruy Vasconcelos


alguns oscilam

no raso. alguns têm

o ventre na areia e

descamam ao sol,

menos barcos que

lagartos. alguns,

todos, um nome de

mulher, algumas

mulheres, uma, que

embaraça cheiro de

homem e maresia.

enquadro da varanda:

esquiva-se do postal

a siesta de cascos no

esgarçar da tarde-

noite. (o Estela gasto

da cachaça e lagos-

tins). seca, uma canção

para nunca. dos ho-

mens, dos barcos, a

vida em fogo baixo.

alguns pés na água.



* * *

Um sem-título inédito de Virna Teixeira

 

Barnett Newman, The Third, 1962



sargaços   céu com vertigem

torpor de mergulho


após o cerco de rochedos



*   *   *

Espasmo quase imperceptível: Williams


Pieter Brueghel, o Velho, Paisagem com a queda de ícaro, circa 1558



Landscape With The Fall of Icarus


According to Brueghel

when Icarus fell

it was spring


a farmer was ploughing

his field

the whole pageantry


of the year was

awake tingling

near


the edge of the sea

concerned

with itself


sweating in the sun

that melted

the wings' wax


unsignificantly

off the coast

there was


a splash quite unnoticed

this was

Icarus drowning



William Carlos Williams



Paisagem com a queda de Ícaro


Segundo Brueghel

quando Ícaro caiu

era primavera


um lavrador arava

seu campo

toda a pompa


do ano seguia

desperta cintilando

rente


à borda do mar

entretida

consigo mesma


suando ao sol

que derreteu

a cera das asas


irressaltado

ao largo da costa

havia


um espasmo quase imperceptível

era Ícaro

afogando-se




Nota - clique sobre o quadro para apreciar a tela em definição ampla.


* * *

Resvalam como sobre água


[s/i/c]

 


Water Music


The words are a beautiful music.

The words bounce like in water.


Water music,

loud in the clearing


off the boats,

birds, leaves.


They look for a place

to sit and eat


no meaning,

no point.


Robert Creeley



Música Aquática


As palavras são bela música.

As palavras resvalam como sobre água.


Música aquática,

volumosa no afastamento


de navios, 

aves, folhas.


Elas buscam um lugar

para sentar e comer—


sem sentido

sem assunto.


* * *

25.10.09

Devagar, o coração respira em música: O'Hara


Claude Monet, Water Lilies, 1926


A Quiet Poem


When music is far enough away

the eyelid does not often move


and objects are still as lavender

without breath or distant rejoinder.


The cloud is then so subtly dragged

away by the silver flying machine


that the thought of it alone echoes

unbelievably; the sound of the motor falls


like a coin toward the ocean's floor

and the eye does not flicker


as it does when in the loud sun a coin

rises and nicks the near air. Now,


slowly, the heart breathes to music

while the coins lie in wet yellow sand.


Frank O'Hara



Um Poema Calmo


Quando a música segue distante demais

a pálpebra nem sempre se move


E os objetos estão calmos feito alfazema

sem sopro ou réplica remota.


A nuvem segue assim tão levemente rebocada

pela máquina voadora cor de prata


que o simples pensamento dela ecoa

incrivelmente; o ruído do motor baixa


como uma moeda ao fundo do oceano

e os olhos não pestanejam


como quando a sol a pino uma moeda

eleva-se e fissura o ar fino. Agora, 


devagar, o coração respira em música

enquanto a moeda jaz sobre a areia úmida. 



* * *


22.10.09

O bem não feito, o amor não dado, o tempo gasto em nada: Larkin

Otto Dix, Dance of the Death, 1924



Aubade


I work all day, and get half drunk at night.

Waking at four to soundless dark, I stare.

In time the curtain edges will grow light.

Till then I see what's really always there:

Unresting death, a whole day nearer now,

Making all thought impossible but how

And where and when I shall myself die.

Arid interrogation: yet the dread

Of dying, and being dead,

Flashes afresh to hold and horrify.


The mind blanks at the glare. Not in remorse

- The good not used, the love not given, time

Torn off unused - nor wretchedly because

An only life can take so long to climb

Clear of its wrong beginnings, and may never:

But at the total emptiness forever,

The sure extinction that we travel to

And shall be lost in always. Not to be here,

Not to be anywhere,

And soon; nothing more terrible, nothing more true.


This is a special way of being afraid

No trick dispels. Religion used to try,

That vast moth-eaten musical brocade

Created to pretend we never die,

And specious stuff that says no rational being

Can fear a thing it cannot feel, not seeing

that this is what we fear - no sight, no sound,

No touch or taste or smell, nothing to think with,

Nothing to love or link with,

The anaesthetic from which none come round.


And so it stays just on the edge of vision,

A small unfocused blur, a standing chill

That slows each impulse down to indecision

Most things may never happen: this one will,

And realisation of it rages out

In furnace fear when we are caught without

People or drink. Courage is no good:

It means not scaring others. Being brave

Lets no-one off the grave.

Death is no different whined at than withstood.


Slowly light strengthens, and the room takes shape.

It stands plain as a wardrobe, what we know,

Have always known, know that we can't escape

Yet can't accept. One side will have to go.

Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring

In locked-up offices, and all the uncaring

Intricate rented world begins to rouse.

The sky is white as clay, with no sun.

Work has to be done.

Postmen like doctors go from house to house.


Philip Lakin



Aubade


Trabalho o dia todo, e à noite fico meio bêbado.

Acordo às quatro em silente breu, e observo.

Breve da cortina a luz vertendo-se pelo lado

E até então, vejo o que sempre esteve lá, em nervo:

Incansável morte, agora um dia mais rente

Tornando impossível pensar com que mente

E onde e quando eu mesmo devo morrer.

Árida questão: temor absorto

de morrer, de estar morto,

Lampeja vivo a me dominar e estremecer.


A mente lacuna-se à visão. Não em remorso

O bem não feito, o amor não dado, o gasto

Tempo em nada – nem lamentavelmente o esforço

Que uma vida toma ao escalar seu lento rasto

Certa de seus começos equívocos, e nada de acerto:

Mas do total vazio sempre perto,

A segura extinção que será nosso paradeiro

E quase sempre se esquece. Não estar mais aqui,

Não estar mais ali,

E em breve; nada mais terrível e mais verdadeiro.


Nenhum truque dissipa esse medo único. A religião escorre

Um vasto, comido por traças, brocado musical

Criado para fazer de conta que não se morre,

E teorias especiosas dizem que um ser racional

Não pode temer o que não sente – nem som, nem sinal

Nem toque ou gosto ou cheiro, nada com que pensar

Nada para amar ou se ligar,

O anestésico para o qual nada vem de encontro, afinal. 


Então ela fica bem à beira da visão

Uma mancha desfocada, persistente frieza

Que ralenta cada impulso em indecisão

Muita coisa jamais haverá: ela é certeza,

E sua realidade raiva acende

Na fornalha do medo quando a gente se pega sem

Companhia ou trago. Não adianta coragem:

Significa não assustar os outros. Ter postura

Não livra ninguém da sepultura.

A morte não muda, se vista com pranto ou vantagem.


Lentamente a vida encorpa, e o quarto se encontorna

E assoma plano como um armário, o que se sabe,

sempre soube, o saber que ela não se contorna

ainda que se não aceite. Há um lado que não cabe.

Enquanto telefones vergam-se, preparando o toque

Em escritórios fechados, e feito de intricado xaboque

De alugado descaso o mundo desperta sua vasa.

O céu é claro como barro, sem sol ao limiar

Alguém tem de trabalhar.

Carteiros como médicos vão de casa em casa.



* * *

19.10.09

Modo de pertença preservado em seu refúgio


Mariana Fontenele, 2009

 

Um par de sandálias sertanejas, os pés sobre elas e a paisagem por onde passam são um só


A imagem acima me evocou, de imediato, este trecho de Heiddeger:

Porém que caminho nos leva ao caráter de utensílio do utensílio? Como podemos saber o que é o utensílio em realidade? Evidentemente, os procedimentos que seguiremos agora conduzem novamente ao atropelo das interpretações habituais. A maneira mais segura de evitá-lo é descrever simplesmente um utensílio prescindindo de qualquer teoria filosófica.

Tomemos como exemplo um utensílio corrente: um par de tamancos camponeses. Para descrevê-lo sequer precisamos ter um exemplar deles. Todos sabem como eles são, porém uma vez que pretendemos oferecer uma descrição direta, não seria excessivo procurar oferecer uma ilustração do mesmo. Para tal bastará um exemplo gráfico. Escolheremos o famoso quadro de Van Gogh, que pintou em diversas ocasiões os mencionados tamancos de camponeses. Mas o que pode ver-se neles? Todo mundo sabe em que consiste um calçado. […] O ser-utensílio do utensílio consiste em sua utilidade. […]

[Mas em Van Gogh] na obscura palmilha gasta do interior do tamanco está gravada a fadiga dos passos e da faina. Na rude e robusta espessura dos tamancos restou presa a obstinação do lento avanço ao longo dos extensos e monótonos sulcos do campo enquanto sopra um vento gelado. No couro está estampada a umidade e o barro do solo. Sob as solas se desprega toda a solidão do caminho através do campo quando cai a tarde. Nos tamancos timbra-se a silente chamada da terra, sua silenciosa dádiva de trigo maduro, sua enigmática renúncia a si mesmo no ermo alqueive do campo invernal. Através desse utensílio passa todo o tácito temor por assegurar o pão, toda a silenciosa alegria de haver tornado a vencer a miséria, toda a angústia entre o próximo parto e o calafrio da morte. Esse utensílio pertence à terra e seu refúgio é o mundo do agricultor. O utensílio pode chegar a repousar em si mesmo graças a esse modo de pertença preservado em seu refúgio. 

[Martin Heiddeger, A Origem da Obra de Arte, trad. nossa, a partir de uma versão para o inglês]  

Um dos problemas dos jovens cineastas cearenses é o de estarem bem pouco atentos ou abertos a essa suplementaridade entre paisagem, utensílios e corpo. É não se aperceberem que eles se complementam. Que essas três instâncias impregnam-se entre si de um modo misterioso e verdadeiramente belo.  


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